quarta-feira

No fim do dia

No terceiro dia ele já estava louco, incontestavelmente perdido nesse emaranhado de sensações que respirava e que aos poucos o matava. As lembranças traziam dor e uma infinita angustia, uma forte e desesperadora sensação de vazio, de que teve uma perda irrecuperável de algo que nem sabia ao certo. Decidiu refazer sua vida, fazer sua vida, uma vida nova, novos amigos, nova casa, novo emprego e novos problemas - pois não há como sem eles -, o passado ele jogaria fora, na cara de qualquer um que ousasse incomodá-lo agora que já não se importava, nem com ele mesmo nem com ninguém. Sim, era uma fuga, uma fuga desesperada de qualquer recordação, de qualquer sensação, de qualquer coisa. A tarde já não havia brilho nos seus olhos, seu sorriso partiu, ele já não existia mais, não sonhava mais, estava convicto, não havia mais jeito, só restava essa opção, só podia partir em busca do desconhecido, já que sua realidade nunca poderia devolvê-lo a felicidade, já que ele nunca mais encontraria essa a quem perseguiu por toda sua longa e dramática peregrinação pelo mundo. Esqueceria, escolheu assim, era o senhor de sua vida, decidiu que seria assim. Foi a ultima vez que se deixou levar, estava cego, estava louco, eufórico e paranóico já não sabia o que fazia, nunca agiu assim, sempre preferiu o silencio e a pureza das coisas sutis, não lhe atraia essa mórbida, falsa e por vezes intensa vida rotineira. E fugiu, já não podia mais, precisava dessa tal liberdade cantada em todas as musicas, narradas em todos os livros e contada em todas as histórias, sua cabeça cada vez mais vazia de idéias era só mais um inimigo a maltratá-lo, ah como seria bom se pudesse se livrar dela, jogá-la no canto da estrada e seguir seu caminho, até a fronteira, até depois da fronteira, até a liberdade. Rastejou horas até que seu corpo exausto e necessitado de alimento, conseguiu encontrar um alento, talvez a cena mais linda que presenciou nos últimos anos, nas ultimas décadas, talvez a cena mais linda de sua vida. Ele que tanto viajou pelos mais famosos cartões postais do mundo, admirador incondicional de belas cenas, das belas artes, das coisas boas e das melhores sensações, estava estático, imóvel, incrível e absolutamente hipnotizado pelo crepúsculo que o absorvia, ali naquela que devia ser a mais horrenda paisagem existente no universo, no lugar que escolhera para se curar, para fugir, ali. Ficou por infinitos segundos em profundo silencio, tudo que podia se ouvir a quilômetros era sua respiração e seu desajeitado coração que batia descompaçado, porém firme - seus ossos sacudiam ao sentir a vibração no peito, ele tremia todo de emoção, de febre e de medo. Sua partida seria gloriosa, o céu em tons de alaranjado e vermelho, com uma mistura de cinzas e roxos, ajudava a tornar o momento perfeito, ele sabia que estava pronto, fitou os prédios ao seu redor, toda aquela ausência de vida, aquela coisa estática, aquela desesperadora procissão de formas, das mesmas formas, viu as primeiras lâmpadas se acendendo, lembrou de quando assim como todos aguardava o fim de tarde, aguardava a hora de chegar a sua casa para descansar e esquecer, a hora triste em que todos os seus sonhos se mostravam impossíveis - por um instante se emocionou, lembrou de tudo que podia ter feito e não fez da vida - toda a beleza do momento contrastava com um nó na garganta, na dor que sentia no peito ao recordar que nunca ousou ser feliz. Nem mesmo a certeza de que fez tudo como lhe foi ensinado, tudo que era certo, da maneira certa, assim como lhe foi dito, tirava dele o desespero de saber que foi covarde, que nada fez dos seus dias na terra, o medo transtornava, torturava, mas já não havia jeito, não havia volta, nem mesmo se gritasse, nem mesmo se suas pernas ainda conseguissem se mover, ele não sobreviveria ao olhar de todos, não sobreviveria a um espelho, estava ali de frente consigo mesmo, com o mais belo e puro crepúsculo de todos os tempos ao alcance das mãos, com as lembranças e medos de uma alma transtornada e um silencio ensurdecedor, aguardando o inesquecível momento. Poucos segundos e já sentia frio, um frio tão implacável que invadiu até os fragmentos de sua impura alma, um vento forte castigava seu corpo, já não conseguia sequer ficar sentado e deixou-se tombar, o chão recebeu seu corpo como a um estranho, o choque rendeu-lhe ainda mais dor, talvez nem tão terrível quanto o que sentia dentro de si, mas ainda incomoda e constante. Quando se deu conta só via o céu, e ao ter essa percepção, como que se um novo homem surgisse do nada, ele sentiu que estava ainda cheio de vigor, sentiu que enfim estava livre, nem a dor da perda, nem a dor da vida, ele estava livre, já não o incomodava os cortes nos pulsos, estava livre, até mesmo aquele gosto amargo de sangue e saudade não habitava mais sua garganta, estava livre, sim livre, já não sentia medo, estava liberto a tal ponto que sentia sequer o ar não entrando em seus pulmões, seu coração não batendo, mas isso já não importava, ele estava definitivamente livre, livre para sempre.

2 comentários:

Anônimo disse...

Nossa até onde vai essa capacidade de narrar hein? Quase um Alencar descrevendo o vestido da Aurélia por páginas a fio...

Jefferson Rangel disse...

Menos, bem menos.
Mas aceito o elogio. :D