sábado

Fernando Pessoa

Antes fosse apenas um fingidor o poeta, mas acredito que antes de tudo é um sentidor, sente tanto que chega a sentir o que deveras sente. Sente de um jeito que só as palavras e ações não seriam suficientes para representar o teor do pulsar de sensações ou a intensidade dos pseudos sofrimentos que tomam posse do peito do mago das letras, o coração nunca cessa de sentir. 

Poética dor, poético sentir, quando é que teu criador o reconhece como verdade? Seria o poeta um mentiroso compulsivo? Que esconde o vazio com seu conjunto de palavras e suas experiências infecundas de eternidade? O poeta sonha? Idealiza? Poderia este viver num mundo que não seja das palavras? 

Em um mundo em que as mais belas o ignoram, desprezam, poderia ele viver onde não fosse ouvido, lido ou em ultima instancia, poderia o poeta viver em um mundo onde seu amor fosse retribuído? 

Talvez toda a magia deste poeta menor consista na impossibilidade de expressar tudo que deseja, mas não aceita. Talvez tudo o que o move somente seja o fracasso, a única esperança pode consistir em deixar de ser poeta, para enfim poder se realizar. 

O desejo todo consiste em deixar de sentir para começar a viver, abandonar a beleza para encontrar a realidade.

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